quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Rio de mim



Lerda perto do relógio, lá está uma lesma. Enquanto segue pela parede, ela cola e recola as pistas do que é. 

Sempre faltam peças. O mundo lá fora, grande. A vida que se voa e vai. Rotinas, escolhas, idiossincrasias que caracterizam, cindindo.

A lesma sofre porque é bicho vivido, sabe muito. O saber da lesma é sua ruína porque ela sabe que é lerda demais perto do relógio. O relógio gira e cria o mundo, já a lesma faz um trajeto separando os lados. Basta olhar o rastro pegajoso da lesma pra entender. Partidas e chegadas incompreensíveis.

Daí que às vezes a lesma tem uma vontade de ser um-eu absoluto de fragmentos inteiros, e ser o universo e ser uma partícula de Bóson. Ser um-eu que não é sozinho nem separado porque não se sabe, se é. Livre do resto, só ser. Meu deus, que delícia.

Talvez ser água. Água que escorre sendo o leito, e é o gato, o limo, o verde da grama e se deleita lentamente, e abraça o que sente com suas gotículas táteis. Sem se apegar a nada.

É bem isso o que queria a lesma... coitada. 
A lesma não sabe que querer ser água é o começo de não ser (porque o querer é sempre deslocado do íntimo) e ela continua num querer que é desespero, que é dor. 

Dou uma risada meio sem graça da nossa ignorância: mesmo cheio de água na barriguinha da lesma, a pele grossa contém o conteúdo. Vai ser só água como?  Mas minha risada é uma bofetada de ar ressecado na cara da lesma, que se reconhece fatalmente amarrada na roda.

Queria ser água só - grita a lesma.
Cansada da casca pequena e burra, ela se recolhe e se encolhe num ovo, então, chove, chove. Chove até secar a vontade. E dorme, refeita.

As gotas de lágrima dão a volta no globo enquanto no sonho embalada,
deságuas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Recadinho pro casal da bicicleta no Rio Tavares

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Ouvi uma conversa de um jovem casal e seus amigos, num barzinho do Rio Tavares. A menina, de uns vinte anos, grávida. E o pai, igualmente  novo, apoiando uma mão na bicicleta e usando a outra pra tomar skol, dizia aos amigos sentados no bar que não queria que o bebê fosse uma menina, porque dá muito trabalho, imagina os cara dando em cima dela, êh. Os amigos e a mãe concordaram meneando a cabeça. Menina dá muito trabalho.


Realmente, querer ter uma menina não é pra qualquer um. Ter filho já não é pra qualquer um, ainda mais se for uma menina.

É preciso que os criadores da criatura sejam diferentes da sociedade média. Tem que ser um par mais adiantado, shiva e shakti, yin yang, mente aberta, visão holística. Tem que reconhecer a dinâmica social de exclusão/inclusão, a fabricação cultural do gênero.

Tem que ser um casal que ame o inteiro de si mesmo e das pessoas, menos crente nas cascas forjadas socialmente. Eles precisam estar dispostos a trabalhar em si mesmo seus machismos e feminismos predatórios. Dispostos a ir arrancando lá do âmago todas as frases erradas que já disseram sobre meninas e meninos, ali incrustadas pela cultura, e em que eles, quase sem saber, ainda acreditam.

Tudo isso para que a criança nasça num ambiente que ofereça condições plenas para a inteireza e subjetividade ímpar. Para descontinuar a longínqua cadeia da supremacia de um sexo sobre o outro, de um povo sobre o outro, do homem sobre a natureza. Para não fazer parte retroalimentadora dos mecanismos exclusórios e estigmatizantes.

Para dar à criança a chave de acesso ao seu poder, mantê-la fluente na sua dupla composição. Para que o ser possa ser. Livre.

Menino menina mulher homem, quê! Menos segmentados, mais conectados. Porque também querer ter um menino não é pra qualquer um. Ter filho já não é coisa pra todo mundo, ainda mais se for um menino!

Somos oito bilhões e o planeta é um só, precisando de seres humanos conscientes e ativos. Ter filhos é pra quem está disposto a fazer em si mesmo a mudança. Senão, use contraceptivos, sabe.

sábado, 9 de julho de 2011

jam session




em cada inspiração, expiração mortificada 
de tesão pela beleza indeterminável
do lugar e do tempo
em que a vida é movimento
da sensualidade igualmente espontânea
do gozo e do choro.


para cada expiração, inspiração
do que é a vida,
vida é, pausa é,
tão célere celebração
em cada traço de sinceridade do corpo sensível
são e só.

terça-feira, 5 de julho de 2011

sei de nada

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Não sei de mim, mas tenho estratégias.
se sinto a força achatadora esmagando de leve, uso couraça;
se vejo a porta enfeitada para a boca aberta do urso, nem passo perto;
se pressões de selva irrompem na paisagem asséptica, escrevo;

Às vezes me excluo ou me revolto. A indignação é solitária. A endinheiração agrega.

Quando salivo mudanças, mordo a língua. Como é que se grita falando baixo?

Se eu me encontrasse e me soubesse, eu me seria e mais nada.
Mas... nada!
Só construto.

Ai, que vontade de rir de tão bunda!


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terça-feira, 7 de junho de 2011

Fiquei encantada quando olhei para o meu dedo

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Ontem nele havia um corte de um centímetro. Era um corte profundo, quase dava para passear o olho pelas camadas de dedo.

Hoje, acordei fungando loucamente. Doía a face e a respiração estava trancada. Tremeliques de frio. Gripe, enfim.

Mas quando olhei para o dedo, não pude parar de pensar no incrível trabalho que o corpo tinha realizado, e nem foi preciso pedir nada. Lembrei do primário quando me ensinaram sobre os leucócitos, a professora dizia que eles eram como um exército que expulsa o invasor. Olhando para o dedo tive a comprovação. Quando cheguei perto do corte, estava lá uma imensa equipe trabalhando, apta a consertar desde pequenos buracos até grandes estragos.

De um dia para outro, o interior da fenda já não estava mais aberto: lá ao fundo um traçado mais escuro ligava as partes cisadas e a trama continuava subindo, aproximando as metades.

Na superfície, no lugar em que havia a abertura explícita do corte, duas linhas de pele quase se tocavam, vermelhas e quentes do trabalho pesado.

Eu estava nessa divagação quando tive um daqueles ataques de espirros feiosos em que, para garantir o asseio do nariz, ou a pessoa se pendura na pia ou separa um rolo de papel higiênico que dê conta.

Mas acho que a história do dedo me deu algum insight porque não fiquei com raiva ou frustrada por conta da gripe, que são as sensações que me acompanham quando fico doente. Na verdade, eu senti um orgulho danado do meu corpo ser tão foda, de tão bem dar conta dos contratempos, de me mover inteirinha para nos defender de um vírus.

Por isso eu e meu corpo temos e teremos cicatrizes várias. Mas, há de se admitir que as feridas da alma são mais difíceis de fechar. Na minha experiência, algumas dessas foram cuidadas com muito amor-próprio e persistência. Cicatrizaram bem. Outras estão aí, incomodando. Coçam...

Por que não somos imortais? Veio a pergunta como um raio, não sei da onde. Fiquei momentaneamente paralisada. O corpo é tão incrível, mas morre.

Bem, pode ser que o problema esteja na pergunta, já que o fato é que todos morreremos. Indignar-se com a natureza realmente não sei se resolve, apesar de a ciência (ou o mercado?) apostar que sim. Daí, na carona, a gente aposta bastante nisso e procura mil e uma maneiras mágicas de prolongar a juventude.

De novo, o fato é que morreremos. Pode ser que o sem-saída esteja nessa afirmação, pois tem um engano no tempo verbal usado. Na lenda da mulher-esqueleto, quando o homem aceita a companhia da morte, eles se unem e passam bem a vida, nutrindo-se um ao outro. Sem a mulher-esqueleto, ele é vazio. Sem o homem, ela é apenas ossos, sem vida.

É isso, então. Morremos o tempo todo. A morte nos habita porque está contida na vida. A morte são minhas cicatrizes, meu corpo quando fala ou espirra. A morte é minha vida; minha vida é minha morte. Perfeitamente indissociáveis.

Não falo disso assim facinho, afinal de contas sou ocidental. Mas faz sentido e liberta. Ver o corpo como um organismo de vida e de morte e que, por isso, pulsa, arde, incha, cospe. Como se corpo não fosse a matéria, mas o movimento incessante e espiralado, vai e vem, som e pausa, comprometido com a vida até seu último.

Senti tanta confiança no corpo, como quem descobre que embaixo da cama escondem-se tesouros.

Devotamente, fiz um chá de gengibre que o ajuda a matar os intrusos, adocei com mel para ajudá-lo a se desfazer do muco. Apaguei a luz e deitei lentamente minha cabeça pesada para tentar ouvir seus recados e descobrir nossas idiossincrasias. Respeitei o mistério e olhei para o dedo com uma gratidão inédita.

Fiz isso tudo viva. Absolutamente viva.


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domingo, 15 de maio de 2011

Somatema

corpo, não és porta

nem umbigo do redemoinho,

não és vértice

nem hélice de toda nuvem que passe;



como se te pungissem pinças de aranha,
como se te perseguisse o mal da existência;



                         corpo,

                         não és o copo de todas as vicissitudes do mundo;



                          mas o corpo sabe,
                          é que o corpo sabe de gozar o que lhe vem.

                          o corpo só co-porta,
                          o corpo coopera.


                          a mente é que às vezes não.




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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Vocabulário de dia cheio

queria
deslizar
escapar
desculpar
compensar
recompor
destrancar
confortar
desinflar
desenhar
traduzir
bem-entender
não-dizer
só-estar
respirar

e eu posso
mas não agora.
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